Vício feio (Nelson Vasconcelos,
O Globo, 26/04/2005)
Parece que a intimidade crescente com a tecnologia da informação está fazendo o ser humano ficar gradativamente idiota. Ao menos é o que diz pesquisa da London University, garantindo que a enxurrada de emails, de mensagens instantâneas e de ligações em celulares está reduzindo o QI de seus usuários, num efeito ainda pior do que o causado pelo uso freqüente de maconha.
Claro que a preocupação maior da pesquisa, feita com 1.100 voluntários, não é com a saúde mental de ninguém, mas sim com a perda de produtividade entre trabalhadores que andam conectados à rede. Falta de concentração, leseira intelectual e incompetência para a administração de emails são alguns dos problemas identificados pela pesquisa. No fim das contas, é como se o sujeito tivesse ficado a noite sem dormir — ou seja: produtividade pífia.
Checar emails tornou-se um vício feio. A compulsão por responder a mensagens eletrônicas prejudica tarefas em curso o tempo todo. Mesmo quando não é obrigatória a resposta imediata a um email, a atenção do funcionário fica perturbada. E a média de QI desse tipo de e-trabalhador, diz a pesquisa, cai em dez pontos, o que seria mais que o dobro verificado em pesquisas com usuários de maconha. Segundo o trabalho, homens são muito mais propensos a esse tipo de distração do que as mulheres.
O coordenador da pesquisa, Glenn Wilson, disse que as empresas também têm culpa nesse cartório. Elas deveriam incentivar o funcionário a conviver com emails e afins de uma maneira mais equilibrada. Checar o correio durante o fim de semana ou durante as férias, por exemplo, é sintoma de que algo estranho está ocorrendo. De qualquer maneira, este é um problema cada vez mais comum, disse Wilson.
E um detalhe, que mostra certa inversão de valores: há quem diga que interromper uma conversa para responder mensagens via celular já é um hábito aceitável, que denota eficiência e presteza. Mas não é. No mínimo, trata-se de falta de educação.